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A agenda oculta

Era uma quinta-feira, finalzinho de tarde, bem dizer já início do final de semana. Três bons malandros, garotos super inteligentes, mas com aquele quê de vagabundagem, resolveram comemorar as boas notas nas provas da faculdade fumando um baseado.

- E ae, Jão…
- E ae, Zé…
- E ae, Rogério regério regente de almeida prado…
- Hahahaha
- Hahahaha
- Hahahaha

Estavam assim, nesse papo cabeça, quando a polícia sentiu o cheiro da marola e resolveu atuar. Eram dois policiais naquela ronda. Um tinha acabado de receber uma ligação da filha de que a empresa de TV a cabo descobriu o gato e cortou o sinal. O outro tinha levado uma gelada da mulher na noite anterior, crises normais de qualquer casamento, mas com uma diferença: agora a mulher estava jogando duro mesmo, e greve de sexo deixa qualquer um em estado de nervos. Daí entende-se o jargão “agiu sob forte emoção”.

Nesse estado de espírito, sem falar nada um com o outro, apenas aquele olhar vingativo foi suficiente para se entenderem de que dessa vez não iria ter “vista grossa”. Pequena e boba agenda oculta de cada policial, que todos nós temos, e que influenciam na vida das pessoas. Na verdade, lei por lei, deveria ser sempre assim…

Levaram os três “maconheiros” presos. Rótulo forte, né? Como é fácil usar um rótulo para transformar estudantes inteligentes e de bem com a vida, comemorando uma semana produtiva com um baseado, em delinquentes sem nada na cabeça, que só pensam em fumar maconha e são um câncer na sociedade. Bom, fato é fato, interpretação é interpretação. Três maconheiros foram presos. Neste relato sem qualquer semelhança com a realidade, em caráter literário, peço licença poética para permitir jogar com fatos, com interpretações, e se possível entortar tudo de modo que quem vê a coisa de um jeito, seja de que jeito for, possa também ver de outro(s), seja lá como for o outro, para pior ou para melhor.

Um grupo de amigos desses caras, também eles maconheiros nas horas vagas, ficou indignado! Começaram a discutir, e tiveram uma idéia fantástica:

- Ei Mané…
- Fala Calu…
- Ozomi levaram o Jão…
- É… e o Zé…
- É… e o Rogério regério regente de almeida prado…
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha

(mais um trago)

- E ae?
- O que?
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha

(mais um trago…)

- Ae que se fuderam!
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha

(Bolando ou baseado)

- Cara, mas e se pegam a gente também?
- Porra, não tinha pensado nisso…
- Pois é…
- Vamo fazê uma parada!
- Tráfico, tô fora!
- Não carai, to falando outra parada…
- Mas eu só tenho maconha.
- Porra bicho, vamo faze uma muvuca, tá ligado?
- Ah… saquei… Tipo, uma revolução…
- Isso…
- E o que a gente reivindica?
- Po…
- Sei lá…
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha

(Acendendo o novo)

- Já sei!
- O que?
- A gente junta a galera, mas não explica nada.
- Nada?
- É porra! Se a gente explicar, sempre vai ter um contra e outro a favor…
- A gente perde 50% da galera
- Então… se a gente não falar do que é, cada um pensa no que quiser e se junta
- Po, saquei… Mas… E depois que a impressa cobrir, a gente fala o que?
- Ah, a gente assiste o que eles acham que dá mais ibope e diz que é aquilo lá.
- Po! Massa mesmo. Vai ser super inteligente a reivindicação, tá ligado!?
- Só…
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha

Aí começa uma muvuca! Molecada invadindo a reitoria, tomando posse de tudo… Mas consciente, claro, sem quebrar nada…

Aí uns caras das ciências sociais aderem ao movimento, com a proposta de fora PM. Uns caras da filosofia já aderem com a idéia de discutir a autenticidade da autoridade do reitor com histórico de facista.

Hum… alguns professores também tem uma agenda oculta… Será possível salvar esse movimento mal iniciado e reivindicar alguma coisa de útil para mudar o 'status quo'? Quem sabe exigir eleições diretas para reitor?

Outros não se interessam, estão satisfeitos com o 'status quo'. Entre eles, engenheiros, médicos, e muitos (a grande maioria) dos alunos.

O governador, requisitado pelo reitor, pensa lá com seus botões: a mídia foi contra o movimento… então é melhor eu também ser contra. Se associarmos o movimento ao consumo de drogas, a sociedade verá com bons olhos a tropa de choque invadindo… Então, dá a ordem: desce o cacete nos burguesinhos maconheiros!

Mas nessas horas, já não se vê os burguesinhos maconheiros. Dentro da reitoria pegam uma meia centena de devoradores de Marx, com um discurso um pouco vazio… Na TV entrevistam professores que tentam dizer que não é reivindicação o “Fora PM”, e sim o processo democrático… E a gente lê as faixas dos alunos dizendo “PMaldita” e as palavras não casam às imagens… Os discursos, cada um tentando trazer o movimento para vender seu peixe, não casam com uma realidade retalhada… Não há união de idéias…

E os maconheiros burguesinhos?

- Cara, que irado né?! (bolando um lá no fim do campinho, atrás da jaqueira, longe dos holofotes)
- Vc viu só, mano!?
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha
- Virou a maior onda!
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha
- Tem neguinho pedindo até a saída do reitor!
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha
- E aquele professor na TV cultura, que disse que não quer a PM fora?
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha
- E a turma da sociologia? Vc viu?
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha
- Sim, os caras falando que a PM não permite discurso político!
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha
- Velho, que se foda tudo, desde que não me atrapalhem fumar meu baseado.
- Hahahahahaha
- Hahahahahaha
- É mesmo! Nóis é foda!

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  • Last modified: 2011/11/12 14:14