2022:07:os-7-pecados-capitais

Os 7 pecados capitais

Os 7 pecados capitais, é um grupo de vícios em uma lista identificada e posteriormente refinada por vários pensadores. Sua origem remonta o texto de Aristóteles (Ética a Nicomaco, ~330 B.C.), em que o mesmo identifica virtudes de um homem magnífico e para cada virtude, dois vícios que ocorrem em contraposição, em ambos extremos do excesso. Para Aristóteles, o caminho da virtude se atinge pelo meio-termo, similar em termos a filosofia budista. Aristóteles não faz uma lista propriamente dita, mas cida virtudes como a coragem, a generosidade, o auto-controle, a grandeza de espírito, inteligência e amicabilidade.

Em um período posterior, o escritor romano Horácio, na sua primeira epistole (21 B.C.), discursa sobre vícios e virtudes, onde cunha uma citação famosa: “Fugir do vício é o início da virtude”. Também escreve a máxima sobre a avareza “Quanto mais se tem, mais se quer”. O catolicismo romano tomou para si o conceito dos sete pecados capitais, e a cada um atribuiu um comportamento humano que deveria ser evitado, sob a pena de pecar.

O termo “pecado mortal” não se refere, neste contexto, a qualquer tipo de pena de morte; mas sim à morte da alma, não havendo portanto absolvição para a reabilitação.

Avançando para o século IV, em torno do ano 375, o monge cristão Evagrius Ponticus, também conhecido como Evagrius o Solitário, que vivia no monastério da cidade de Bitínia, na Ásia Menor (hoje a moderna Turquia, na costa do Mar Negro), realizou o primeiro esforço de compilar uma lista de oito vícios que identificou como primordiais, e as chamou de lista de oito tentações (ou pensamentos terríveis). São eles: gula, fornicação, avareza, tristeza, raiva, desânimo, vanglória e orgulho.

Dois séculos depois, no ano 590, o Papa Gregório I, faria uma revisão desta lista, que ficou conhecida como a lista dos 7 pecados capitais. Em suas meditações, concluiu por bem combinar tristeza e desânimo em uma única fonte de vício que denominou preguiça; combinou orgulho e vanglória em uma única, que manteve o nome orgulho, e é considerada hoje a mãe de todos os vícios. E por fim, adicionou a inveja, com isto criando a revisão clássica de vícios que sobreviveu ao teste do tempo.

  1. Orgulho (latin: superbia). Soberba, super-valorização do eu, grandiosidade, arrogância. Inglês: Pride, arrogance, grandiosity.
  2. Preguiça (latin: tristitia). Desânimo, depressão, inatividade em busca do bem, Inglês: Sloth, laziness.
  3. Avareza (latin: avaritia). Ganância, ambição desenfreada. Inglês: Greed, greediness, covetousness, avarice.
  4. Gula (latin: gluttire). Glutonaria, gulodice, voracidade ou avidez por comida e bebida. Inglês: Gluttony (inclui drunkenness), overindulgence, overconsupmption to the point of waste.
  5. Luxúria (latin: luxuriae). Lascívia, libertinagem, concupiscência. Inglês: Lust, inordinate sexual desire.
  6. Ira (latin: ira). Raiva, ódio. Inglês: Wrath, Fury, Anger.
  7. Inveja (latin: invidia). Cobiça, ciúmes desenfreados. Inglês: Envy, jealousy.

Estes sete pecados capitais se tornaram a lista padrão, que depois foi revisada e defendida pelo filósofo São Tomás de Aquino, em seu livro Summa Theologica (1485).

Dante Alighieri, poeta e escritor italiano de Florença, em seu extraordinário poema A Divina Comédia (escritura completada 1320, um ano antes da sua morte), considerado um dos mais importantes poemas e trabalho literário da idade média, desenhou no purgatório os sete pecados capitais, associando todos a corrupções do amor, com exceção da preguiça, que seria a falta de amor.

Antes de nos aprofundarmos nos sete pecados capitais, vamos antes ver uma lista semelhante, dos seis pecados contra o Espírito Santo.

Se os 7 pecados capitais são independentes da religião cristã, é algo que se pode debater. Porém, já a lista dos 6 pecados contra o Espírito Santo, é definitivamente vinculada a doutrina cristã, e faz parte do terceiro catecismo de São Pio X. Segundo São Tomás de Aquino, estes são os pecados contra a bondade de Deus. Pecar contra o Espírito Santo é pecar contra o amor divino, pois das trẽs pessoas divinas, é o Espírito Santo que associamos ao conceito de amor verdadeiro. Para referência, pecar contra a primeira pessoa divida, Deus Pai todo-poderoso, é chamado de pecado por fraqueza; enquanto que pecar contra a segunda pessoa divina, o Filho, Palavra-da-Sabedoria, é o pecado por ignorância. Ambos possuem absolvição. Porém pecar contra o Espírito Santo não há perdão.

Os seis pecados contra o Espírito Santo são:

  1. Desespero de não-salvação (Despair)
  2. Presunção de salvação sem merecimento (Presumption)
  3. Negação da verdade da fé (Impugnation)
  4. Inveja da graça fraterna (Envy)
  5. A obstinação no pecado (Obstinacy)
  6. A Impenitência final (Impenitence)

Vamos analisar brevemente cada um, para vermos se há correlação com os 7 pecados capitais.

Uma pessoa que considera que já pecou tanto que não há mais salvação. Neste caso não busca salvação por estar convencida que seu destino para o inferno já está traçado. A inanição para agir em seu próprio bem pode ser associada ao pecado da Preguiça.

A solução: acalme seu coração, busque a salvação, e passe a viver uma vida digna.

Resumo: consiste em acreditar que seus pecados são maiores que os imaginados pela divina benevolência.

Uma pessoa que se acha tão virtuosa que não vê possibilidade outra que não a de já estar salva, com seu lugar no paraíso garantido. Neste caso, tal pessoa não busca salvação por acreditar que é desnecessário, pois já está salva. Tal comportamento pode ser associado ao pecado do Orgulho.

A solução: busque a humildade, e reaprenda a ter medo. O medo é um guia para o bom caminho. Nada é garantido neste mundo ou no próximo, e acreditar que é pode ser um erro fatal. Busque melhorar sempre, pratique o bem, e mantenha-se atento à sua própria arrogância. Busque o auto-conhecimento em seu ponto máximo, a ponto de entender a posição socrática que diz “só sei que nada sei”.

Resumo: quando certa pessoa decide valorizar sua própria glória, sem quaisquer méritos, arrependimentos ou perdões.

A pessoa neste estado de consciência acredita piamente em suas próprias verdades, e não aceita a palavra sagrada por orgulho. São os “donos da verdade”, e acreditam que sabem mais que a própria igreja na figura dos seus mentores. Neste caso tal pessoa não busca a salvação por achar que está certa em sua atuação e não há nada a se confessar. Tal comportamento está também vinculado ao Orgulho.

A solução: busque a humildade, comece a olhar o outro com olhos de aprendiz. Aprenda a sentir-se feliz quando alguém lhe apresentar uma posição diferente, ao invés de se sentir desafiado. Pratique a gratidão.

Resumo: entrar em conflito com conhecidas verdades da fé, em especial representar erroneamente a fé em Cristo para torná-la insuportável.

A pessoa que inveja a graça que Deus dá a outrem incorre neste pecado. Neste caso a pessoa não busca a salvação por estar revoltada contra Deus, e não há arrependimento em seu coração. Este comportamento tem tendência a levar ao pecado da Ira. Este é o pecado capital central na história de Caim e Abel.

A solução: é preciso mudar o ponto-de-vista, e passar a entender que devemos crescer junto com os outros. O crescimento do próximo é uma oportunidade para o auto crescimento. Outro fator importante para a busca de paz ao se sentir adentrando neste caminho é lembrar que as coisas não são feitas com você no centro do mundo, e nem tudo é direcionado a você. Busque a humildade para entender que devemos ser gratos pelo que temos e buscar pelo trabalho melhorar.

Resumo: A inveja é parte dos sete pecados capitais, mas só se torna um pecado contra o Espírito Santo se o indivíduo inveja a benevolência, a virtude ou a graça de outros.

Este é o caso do pecado por pura malícia. A pessoa não incorre em pecado por tentação, mas busca deliberadamente o pecado, pois ama pecar. Neste caso a pessoa não busca salvação porque não deseja, porque quer continuar pecando. Este pecado está vinculado aos pecados da carne, como a luxúria e a gula, mas também é generalizado em todos tipos de excessos, o que os filósofos costuma classificar como a busca das paixões.

A solução: mesmo que internamente esse desejo se manifeste, como seres racionais capazes de guiar nossas ações por objetivos mais nobres, podemos praticar a constrição e nos poupar dos excessos em busca de uma vida de caridade. A busca da felicidade não deve ser um fim, e é supervalorizada na sociedade moderna. A felicidade é inútil. Busque antes o significado da sua vida.

Resumo: persistir no comportamento inescrupuloso, pulando de pecado em pecado, mesmo após instrução e advertências suficientes.

A pessoa em sua hora mais extrema, próxima da morte, rejeita o arrependimento final. É a suprema rejeição final a Deus, mesmo na hora da morte. Neste caso, a pessoa não busca salvação porque está convicta de sua rejeição, seja por quais motivos forem; sendo os mais comuns não acreditar na existência de Deus, ou acreditando, não se sujeitar ao seu poder. Não há uma referência clara a um dos sete pecados capitais, mas pode-se vincular, a depender dos motivos alegados, ao Orgulho, à Ira, à Inveja ou à Preguiça.

A solução: deve-se evitar chegar neste estágio, com meditação e ponderação durante a vida. Nos momentos finais da vida, se a convicção contrária à penitência for forte, talvez não haja tempo o suficiente para a reflexão e uma mudança de coração. Ainda assim, se o aconselhamento puder trazer algum benefício, que seja aconselhado a morrer em paz, sem guardar rancor, para o caso da revolta contra Deus; ou que seja aconselhado a dar uma chance para a fé, para o caso do ateu convicto.

Resumo: basicamente é quando a pessoa refuta a confissão e a contrição dos seus vícios.

Os sete pecados capitais não estão na lista por serem os piores pecados per se. São, no entanto, as raízes de todos os pecados humanos, dos quais emanam os outros pecados. São Tomás de Aquino elucidou desta forma: “Os pecados capitais são aqueles que dão origem aos outros, especialmente na forma de causa final” (Summa I-II 84:4).

Para uma confissão dos pecados, não basta simplesmente relatar a “categoria” na qual pecou, mas é preciso dar especificidades, ou senão um padre ao ouvir sua confissão não terá informação o suficiente para deliberar sobre a gravidade do ato. Não adiantaria, por exemplo, falar para um sacerdote religioso: “Eu cometi o pecado da ira”; sem explicar as consequências dos seus atos, o que de fato ocorreu.

Talvez as origens dos sete pecados capitais encontrem raízes na lista dos Dez Mandamentos, onde temos as mais antigas referências a normas de conduta moral. O Decálogo encontra-se em Exodus 20 e em Deuteronômio 5, e sua forma no compêndio do catecismo, baseada no texto do Deuteronômio:

  1. Amar a Deus sobre todas as coisas.
  2. Não usar Seu Santo Nome vão.
  3. Santificar os Domingos e festas.
  4. Honrar pai e mãe.
  5. Não matar.
  6. Não cometer atos contra a castidade.
  7. Não roubar.
  8. Não levantar falsos testemunhos.
  9. Não desejar a mulher do próximo.
  10. Não cobiçar as coisas alheias.

Além desses, algumas bíblias tem traduções diferentes que incluem:

  1. Eu sou Javé, o Senhor teu Deus.
  2. Não terás outro Deus senão a mim.
  3. Não farás imagem de esculturas.
  4. Não cometerás adultério.
  5. Não cobiçarás a casa do teu próximo.
  6. Guardar castidade nos pensamentos e desejos.
  7. Guardar castidade nas palavras e nas obras.

Uma interpretação dos 10 mandamentos nos mostra o caminho a seguir para termos uma vida digna.

1. Amar a Deus sobre todas as coisas.

Amar a todos, perdoar a todos e a todos servir sem exclusão. Amar a Deus como Deus nos amou, inclui amar ao próximo como ele também o fez. É pelo amor que se conquista uma vida livre de arrependimentos.

2. Não usar Seu Santo Nome vão.

Ensina o que é sagrado, ensina o respeito que é consequência do amor. Este mandamento proíbe o uso impróprio do nome de Deus, o que em si só já separa o joio do trigo. É muito revelador fazer uma introspecção na sua vida e descobrir o respeito ao que é sagrado. Existe algo sagrado na sua vida? A palavra sagrado perdeu o sentido para você?

3. Santificar os Domingos e festas.

Assistir as missas, ou participar da igreja ou da comunidade religiosa. Tirar um dia da semana para dedicar às tarefas de Deus.

4. Honrar pai e mãe.

Trata do respeito aos pais, e também aos nossos antepassados. Promove a obediência e o diálogo.

5. Não matar.

Interessante como no cristianismo é um mandamento definitivo, enquanto no quorão se lê “não matar de forma injustificada”, onde a guerra, a punição capital e a invasão a domicílio noturna são consideradas justificadas. Só Deus tem o direito de tirar a vida, e isto inclui eutanásia, aborto, suicídio e homicídio. Destas formas, todas dependem da intenção de matar, e não incluem portanto a morte acidental.

6. Não cometer atos contra a castidade.

Este mandamento, mais geral, também é lido em outras versões mais especificamente como “não cometer adultério”. O adultério varia em diferentes culturas, mas para sua busca pessoal, a sua cultura é a sua bússola. Aqui se afirma que devemos nos cuidar em relacionamentos amorosos, namoros, e manter o corpo e a alma puros evitando relacionamentos superficiais, além de harmonizar a integração correta da sexualidade na pessoa.

7. Não roubar.

Não se apropriar do que não é seu. Evite também roubar a paz das pessoas à sua volta.

8. Não levantar falsos testemunhos.

A palavra é um ponto de honra em uma pessoa digna. Sem honra, você não é nada.

9. Não desejar a mulher do próximo.

Este mandamento se generaliza em mantermos o respeito pelo compromisso assumido pelos outros. Valorizar o matrimônio e dar a devida importância à família também.

10. Não cobiçar as coisas alheias.

Promove o SER antes do TER. Veja o Sermão da Montanha (Mateus 5, 1-12). Neste mandamento, em algumas traduções, incluem-se não cobiçar a casa do próximo e a mulher do próximo. É um mandamento diretamente vinculado à ideia do pecado capital da inveja.

Orgulho (latin: superbia). Soberba, super-valorização do eu, grandiosidade, arrogância. Inglês: Pride, arrogance, grandiosity.

Preguiça (latin: tristitia). Desânimo, depressão, inatividade em busca do bem, Inglês: Sloth, laziness.

Avareza (latin: avaritia). Ganância, ambição desenfreada. Inglês: Greed, greediness, covetousness, avarice.

Gula (latin: gluttire). Glutonaria, gulodice, voracidade ou avidez por comida e bebida. Inglês: Gluttony (inclui drunkenness), overindulgence, overconsupmption to the point of waste.

Luxúria (latin: luxuriae). Lascívia, libertinagem, concupiscência. Inglês: Lust, inordinate sexual desire.

Ira (latin: ira). Raiva, ódio. Inglês: Wrath, Fury, Anger.

Inveja (latin: invidia). Cobiça, ciúmes desenfreados. Inglês: Envy, jealousy.

You could leave a comment if you were logged in.
  • 2022/07/os-7-pecados-capitais
  • Last modified: 2022/07/11 01:36